Dízimo é bíblico?

21 The Coins of the Money Changers

photo: auntjojo

“Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa, e depois fazei prova de mim nisto, diz o SENHOR dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós uma bênção tal até que não haja lugar suficiente para a recolherdes.”  (Malaquias 3 : 10)

Uma afirmação comum na boca de pessoas que conhecem um pouco da Bíblia é que o dízimo seja bíblico.

Dizem isso porque a Bíblia menciona o dízimo em seu texto, porque fazia parte da lei de Moisés e porque Malaquias tem promessas para quem o trouxesse ao templo da época.

“… Abrão deu-lhe o dízimo de tudo.”  (Gênesis 14 : 20)

“No tocante a todas as dízimas do gado e do rebanho, tudo o que passar debaixo da vara, o dízimo será santo ao SENHOR.”  (Levítico 27 : 32)

Mas o que faz com que algo seja bíblico?É a menção?É o fato de fazer parte de uma lei que a própria Bíblia diz que acabou?É estar ligado a uma bênção que funcionava dentro da vigência da lei que agora já acabou?

O dízimo na lei estava ligado ao templo ou ao tabernáculo, não era entregue em outro lugar.Hoje em dia não existem mais nem o templo e nem o tabernáculo físicos, Jesus não manda construir templos e nem diz que quem os construir estará fazendo algo equivalente ao templo físico do antigo testamento.

Em Israel, não havia um templo por cidade.

Além do mais, recebemos revelação de que o templo era um símbolo de nós mesmos como casa de Deus.Se somos casa de Deus, onde fica a casa do tesouro?Deveríamos continuar dando o dízimo distribuindo-o entre as pessoas da igreja?

“Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?”  (I Coríntios 3 : 16)

A Bíblia fala do dízimo e parte dela ensina que se deve dar o dízimo, mas é uma parte que pertence ao passado, que apenas trabalha em cima de um povo que tinha um governo totalmente diferente do nosso.

O dízimo em Israel era uma espécie de imposto usado para manter um sistema religioso que não tem nada a ver com o que Jesus veio ensinar depois e nem com o que temos hoje.

Levitas e sacerdotes não equivalem aos nossos obreiros, pastores e cantores atuais.Levitas e sacerdotes trabalhavam no pesado, faziam trabalho de açougueiro e diversos rituais que não passam nem perto do que a maioria das religiões fazem hoje.

“Mas tu põe os levitas sobre o tabernáculo do testemunho, e sobre todos os seus utensílios, e sobre tudo o que pertence a ele; eles levarão o tabernáculo e todos os seus utensílios; e eles o administrarão, e acampar-se-ão ao redor do tabernáculo.”  (Números 1 : 50)

“Depois degolará o bezerro perante o SENHOR; e os filhos de Arão, os sacerdotes, oferecerão o sangue, e espargirão o sangue em redor sobre o altar que está diante da porta da tenda da congregação.”  (Levítico 1 : 5)

Havia uma tribo inteira que dependia dos dízimos das 11 tribos para ser sustentada.11 tribos doando 10% dariam a tribo de Levi pouco mais do que cada tribo produzia para si (110%).

“E eis que aos filhos de Levi tenho dado todos os dízimos em Israel por herança, pelo ministério que executam, o ministério da tenda da congregação.”  (Números 18 : 21)

Se 11 tribos eram necessárias para sustentar uma tribo que não produzia sustento para si (mas trabalhava bastante) não seria exagero exigir que uma igreja com mais de 100 membros dê o dízimo?

O dízimo nos moldes atuais, sendo entregue na tesouraria de um local de culto para sustento do pastor, construção de imóveis e outros motivos não é bíblico.Há um dízimo bíblico que não é o que se prega hoje em dia e nem  mesmo o Novo Testamento insiste nele.

Isso não quer dizer que seja errado dizimar ou que não devamos doar mais nada, apenas nos livra da obrigatoriedade de doar 10% (caso não possamos fazê-lo) e da obrigatoriedade de entregar tudo isso num local só.

“Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria.”  (II Coríntios 9 : 7)

Doar é bom e não é bom ser apegado ao dinheiro, mas isso não justifica que se minta dizendo que é bíblico algo que não é.

“Vendei o que tendes, e dai esmolas. Fazei para vós bolsas que não se envelheçam; tesouro nos céus que nunca acabe, aonde não chega ladrão e a traça não rói.”  (Lucas 12 : 33)

“E disse-lhes: Acautelai-vos e guardai-vos da avareza; porque a vida de qualquer não consiste na abundância do que possui.”  (Lucas 12 : 15)

Como se rouba a Deus?

Caught in the Act

Caught in the Act por *saxon*, no Flickr

“Roubará o homem a Deus? Todavia vós me roubais, e dizeis: Em que te roubamos? Nos dízimos e nas ofertas.”  (Malaquias 3 : 8 )

Costuma-se interpretar o verso acima como se o fato de não se dar o dízimo seja roubar a Deus, pois, teoricamente, 10% de nossas posses pertencem a Deus e deve ser, obrigatoriamente, devolvida.

Mas a Bíblia diz que tudo é de Deus e não só 10%.

“Porque a terra é do Senhor e toda a sua plenitude.”  (I Coríntios 10 : 26)

Logo roubar a Deus não tem a ver com não devolver uma parte de nossos bens, pois tudo o que temos(mesmo que não devolvamos nada) já pertence a Ele.

Na verdade o roubar a Deus tem a ver com o roubar ao próximo.

No contexto de Malaquias os roubados eram os levitas, as viúvas e os órfãos que legalmente  tinham o direito de comer dos dízimos e que, não sendo o dízimo dado, ficavam sem ter o que comer:

“Quando acabares de separar todos os dízimos da tua colheita no ano terceiro, que é o ano dos dízimos, então os darás ao levita, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva, para que comam dentro das tuas portas, e se fartem;”  (Deuteronômio 26 : 12)

Deus apenas toma as dores deles e diz que quem os rouba, está roubando a Ele.

Perceba que Deus não apenas cobra os dízimos e ofertas, como também diz para que eles seriam utilizados:

“Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa, e depois fazei prova de mim nisto, diz o SENHOR dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós uma bênção tal até que não haja lugar suficiente para a recolherdes.”  (Malaquias 3 : 10)

Nos dias de hoje não temos mais levitas e nem uma lei que nos obrigue a dar o dízimo para os pobres, por isso creio que o termo “roubar” não se aplique mais àquele que não dá o dízimo.

No entanto aquele que deixa de pagar um devedor seu para dar o dízimo pode ser chamado assim, pois está tomando posse do que não lhe pertence para supostamente doar a Alguém que já é dono de tudo e por isso não precisa.

A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor com que vos ameis uns aos outros; porque quem ama aos outros cumpriu a lei.”  (Romanos 13 : 8 )

Passado o medo de ser chamado de ladrão, fica-se livre para doar movido pelo amor, sem quantias predefinidas e somente do que se tem.

Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria.”  (II Coríntios 9 : 7)

“Porque, se há prontidão de vontade, será aceita segundo o que qualquer tem, e não segundo o que não tem.”  (II Coríntios 8 : 12)