Divórcio, novo casamento e adultério

“Eu, porém, vos digo que qualquer que repudiar sua mulher, a não ser por causa de prostituição, faz que ela cometa adultério, e qualquer que casar com a repudiada comete adultério.”  (Mateus 5 : 32)

 

“Eu vos digo, porém, que qualquer que repudiar sua mulher, não sendo por causa de fornicação, e casar com outra, comete adultério; e o que casar com a repudiada também comete adultério.”  (Mateus 19 : 9)

 

“Eu, porém, vos digo, que qualquer que atentar numa mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela.”  (Mateus 5 : 28)

 

“Todavia, aos casados mando, não eu mas o Senhor, que a mulher não se aparte do marido.Se, porém, se apartar, que fique sem casar, ou que se reconcilie com o marido; e que o marido não deixe a mulher.”  (I Coríntios 7 : 10,11)

 

“Mas, se o descrente se apartar, aparte-se; porque neste caso o irmão, ou irmã, não esta sujeito à servidão; mas Deus chamou-nos para a paz.”  (I Coríntios 7 : 15)

 

Muito se menciona nas igrejas evangélicas em geral, na hora de falar sobre divórcio, as falas de Jesus sobre esse tema.Normalmente se interpreta que ou o casal  não deve se separar jamais ou só pode se separar em caso de traição.Algumas igrejas aceitam que a pessoa case novamente caso tenha sido traída no primeiro casamento, outras aceitam apenas um novo casamento em caso de viuvez.

 

Algumas igrejas, apesar de toda rigidez teológica teórica, provavelmente não se oporiam à uma pessoa se separar de um conjugue violento ou criminoso (a pessoa poderia, talvez, até se casar novamente).Isso é aceito (quando é) apenas pelo “bom senso” pois não há base bíblica explicita para esse tipo de exceção.

 

Qual o problema nisso?Não que esteja errado concordar com o divórcio e novo casamento de alguém que vivenciou uma situação assim.Não há base bíblica explicita para isso assim como não há base bíblica explicita para um monte de coisas o que não faz com que o ato seja “errado”.O problema é que as pessoas são flexíveis apenas em situações extremas.Ora, se por bom senso se aceita o divórcio em casos que não tem a ver com o adultério porque é que em outros casos não se aceita?Por que é que a pessoa tem que chegar a beira da morte ou de um dano grave para que se possa usar o bom senso?

 

Não estou sugerindo aqui que se use algo totalmente exterior a Bíblia para “regulamentar” casamento e divórcio.Creio que o tal bom senso pode ser visto na Bíblia também.Creio que Jesus, embora tenha dito poucas palavras sobre o assunto de tal forma que parece que só adultério(fornicação, relações sexuais ilícitas, seja qual for a tradução correta do termo) visse a coisa de forma mais flexível.

 

Ora, Jesus diz que quem se separa de alguém (no contexto, o homem se separa da mulher, pois as coisas não eram como hoje, o que é algo para se pensar também) que cometeu adultério ou outra relação sexual ilícita (vide todas os tipos de relações sexuais proibidas na lei de Moisés) poderia se divorciar e casar novamente sem estar cometendo adultério.Jesus também diz que quem cobiça o conjugue alheio comete adultério e não faz nenhuma separação (como nós convenientemente fazemos) entre o adultério “mental” e o adultério “físico”.

 

Não estaria a possibilidade de divórcio e novo casamento bem mais ampla do que costumamos interpretar?Afinal, todos ou quase todos já adulteraram segundo Jesus.Jesus disse essas coisas para que as pessoas se divorciassem a vontade?É claro que não!Vemos pelo ensino dEle que casamento é algo que deve ser levado a sério, não pode ser irresponsável nem uma brincadeira.Mas para os que usam seu ensino para prender as pessoas, há brechas também.

 

Muitos pensam que o traído pode se separar e casar de novo mas o traidor jamais poderia se casar novamente meio que como um castigo por sua traição.Não notam, porém, que se a traição liberta o traído, liberta também o traidor.O casamento acaba!Se não fosse assim, ao menos quando o traído casa novamente o ex traidor poderia também se casar, pois, de certa forma sua ex o “traiu” (se uniu a outra pessoa).

 

O mesmo se aplica ao conjugue crente que se converte e sua espiritualidade faz com que o conjugue descrente queira se separar.Essa é uma das exceções mais aceitas pelas igrejas.Mas mesmo para as que não aceitam, se o ex conjugue descrente se separa e arranja outra pessoa, então “cometeu adultério” e libertou o conjugue para se casar novamente.

Complexo, não?Mas é o raciocínio que creio que todo apegado à letra deveria fazer para não ser injusto com ninguém seja no ensino, seja no juízo.

Dízimo é bíblico?

21 The Coins of the Money Changers

photo: auntjojo

“Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa, e depois fazei prova de mim nisto, diz o SENHOR dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós uma bênção tal até que não haja lugar suficiente para a recolherdes.”  (Malaquias 3 : 10)

Uma afirmação comum na boca de pessoas que conhecem um pouco da Bíblia é que o dízimo seja bíblico.

Dizem isso porque a Bíblia menciona o dízimo em seu texto, porque fazia parte da lei de Moisés e porque Malaquias tem promessas para quem o trouxesse ao templo da época.

“… Abrão deu-lhe o dízimo de tudo.”  (Gênesis 14 : 20)

“No tocante a todas as dízimas do gado e do rebanho, tudo o que passar debaixo da vara, o dízimo será santo ao SENHOR.”  (Levítico 27 : 32)

Mas o que faz com que algo seja bíblico?É a menção?É o fato de fazer parte de uma lei que a própria Bíblia diz que acabou?É estar ligado a uma bênção que funcionava dentro da vigência da lei que agora já acabou?

O dízimo na lei estava ligado ao templo ou ao tabernáculo, não era entregue em outro lugar.Hoje em dia não existem mais nem o templo e nem o tabernáculo físicos, Jesus não manda construir templos e nem diz que quem os construir estará fazendo algo equivalente ao templo físico do antigo testamento.

Em Israel, não havia um templo por cidade.

Além do mais, recebemos revelação de que o templo era um símbolo de nós mesmos como casa de Deus.Se somos casa de Deus, onde fica a casa do tesouro?Deveríamos continuar dando o dízimo distribuindo-o entre as pessoas da igreja?

“Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?”  (I Coríntios 3 : 16)

A Bíblia fala do dízimo e parte dela ensina que se deve dar o dízimo, mas é uma parte que pertence ao passado, que apenas trabalha em cima de um povo que tinha um governo totalmente diferente do nosso.

O dízimo em Israel era uma espécie de imposto usado para manter um sistema religioso que não tem nada a ver com o que Jesus veio ensinar depois e nem com o que temos hoje.

Levitas e sacerdotes não equivalem aos nossos obreiros, pastores e cantores atuais.Levitas e sacerdotes trabalhavam no pesado, faziam trabalho de açougueiro e diversos rituais que não passam nem perto do que a maioria das religiões fazem hoje.

“Mas tu põe os levitas sobre o tabernáculo do testemunho, e sobre todos os seus utensílios, e sobre tudo o que pertence a ele; eles levarão o tabernáculo e todos os seus utensílios; e eles o administrarão, e acampar-se-ão ao redor do tabernáculo.”  (Números 1 : 50)

“Depois degolará o bezerro perante o SENHOR; e os filhos de Arão, os sacerdotes, oferecerão o sangue, e espargirão o sangue em redor sobre o altar que está diante da porta da tenda da congregação.”  (Levítico 1 : 5)

Havia uma tribo inteira que dependia dos dízimos das 11 tribos para ser sustentada.11 tribos doando 10% dariam a tribo de Levi pouco mais do que cada tribo produzia para si (110%).

“E eis que aos filhos de Levi tenho dado todos os dízimos em Israel por herança, pelo ministério que executam, o ministério da tenda da congregação.”  (Números 18 : 21)

Se 11 tribos eram necessárias para sustentar uma tribo que não produzia sustento para si (mas trabalhava bastante) não seria exagero exigir que uma igreja com mais de 100 membros dê o dízimo?

O dízimo nos moldes atuais, sendo entregue na tesouraria de um local de culto para sustento do pastor, construção de imóveis e outros motivos não é bíblico.Há um dízimo bíblico que não é o que se prega hoje em dia e nem  mesmo o Novo Testamento insiste nele.

Isso não quer dizer que seja errado dizimar ou que não devamos doar mais nada, apenas nos livra da obrigatoriedade de doar 10% (caso não possamos fazê-lo) e da obrigatoriedade de entregar tudo isso num local só.

“Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria.”  (II Coríntios 9 : 7)

Doar é bom e não é bom ser apegado ao dinheiro, mas isso não justifica que se minta dizendo que é bíblico algo que não é.

“Vendei o que tendes, e dai esmolas. Fazei para vós bolsas que não se envelheçam; tesouro nos céus que nunca acabe, aonde não chega ladrão e a traça não rói.”  (Lucas 12 : 33)

“E disse-lhes: Acautelai-vos e guardai-vos da avareza; porque a vida de qualquer não consiste na abundância do que possui.”  (Lucas 12 : 15)

Sacrifício de uma filha – o caso de Jefté

photo: leo.jeje

E Jefté fez um voto ao SENHOR, e disse: Se totalmente deres os filhos de Amom na minha mão, aquilo que, saindo da porta de minha casa, me sair ao encontro, voltando eu dos filhos de Amom em paz, isso será do SENHOR, e o oferecerei em holocausto.

Vindo, pois, Jefté a Mizpá, à sua casa, eis que a sua filha lhe saiu ao encontro com adufes e com danças; e era ela a única filha; não tinha ele outro filho nem filha. (Juízes 11:30,34)

Ouvi dizer que alguém teria usado, numa pregação, a história de Jefté como exemplo de um homem que deu a Deus o melhor que tinha.Quem conhece a história sabe (ou tem a impressão) que não foi escolha de Jefté sacrificar a filha, mas que ele realmente pretendia dar algo de valor para Deus em troca da vitória numa batalha.

Essa tentativa dele e de tantos outros do Antigo Testamento revela uma certo paganismo presente em vários homens da antiguidade que não faziam ideia  da existência da Graça de Deus.

Jefté era um homem de fé, inclusive sendo elogiado no livro de Hebreus ,no entanto, o fato de ser elogiado e estar na lista dos “heróis da fé”, não faz com que tudo o que Jefté tenha feito tenha sido correto.

Deus nada diz sobre o voto de Jefté, nem a favor nem contra, apenas atende ao pedido dele, o que não quer dizer que Deus exigiria o cumprimento do voto louco que ele fez.

A lei de Moisés condenava a prática de sacrifícios humanos, mas há grande chance de que Jefté não a conhecesse a fundo ou achasse que poderia abrir uma excessão, já que tinha se feito um voto e, supostamente, deveria cumpri-lo a todo custo.

Embora, aparentemente, Jefté não quisesse sacrificar a filha, pode ser que pretendesse sacrificar alguma pessoa, já que pretendia sacrificar alguém ou algo que viesse ao seu encontro.É de se imaginar que Jefté não pretendesse ver saindo de sua casa um animal do tipo que normalmente era sacrificado.Pode ser que ele pensasse num animal doméstico ou então uma pessoa que não fosse tão importante para ele, talvez um escravo que ele possuísse e que viesse lhe oferecer seus serviços na sua chegada.

Pode parecer chocante, mas os valores da época (aos olhos dos homens, mesmo os que criam em Deus) eram outros.

Não creio que o sacrifício da filha possa ter sido somente ela ter ficado virgem para sempre, servindo no tabernáculo.Jefté fala em holocausto, que era, quase sempre, uma oferta queimada.

Que todos tomem mais cuidado ao usar passagens do AT.Na dúvida, não usem, pois o Novo Testamento  já tem tudo o que precisamos.