Memórias do subsolo de Dostoiévski e a Psicanálise

Memórias do Subsolo

Resumo

A proposta deste trabalho é apresentar possíveis elementos da teoria psicanalítica que estejam presentes na obra “Memórias do subsolo” (também conhecida como “notas do subsolo ou do subterrâneo”) de Fiódor Mikhailovich Dostoiévski. Foram encontrados diversos sintomas como Sadismo, masoquismo, neurose obsessiva. O texto permite ilustrar as ideias psicanalíticas de “inconsciente”, “eu”(ou ego), “supereu”(ou superego), “isso”(ou id), “benefício da doença”, entre outros.

 Introdução

A justificativa maior deste trabalho se dá pelo fato de “Memórias do subsolo” (1864) ser um livro de grande importância do escritor Fiódor Mikhailovich Dostoiévski (1821-1881), que foi um autor prolífico em apresentar, em sua obra geral, uma grande quantidade de problemas acerca da subjetividade humana. Sigmund Freud (1856-1939) analisou diversas obras artísticas (dentre elas, até mesmo um do autor aqui estudado) do ponto de vista psicanalítico, logo a análise dessa obra também se mostraria relevante para a psicologia.

Deduz-se que Freud tem dois posicionamentos epistemológicos quanto à abordagem do texto literário: um, em que vê o autor por meio do texto; outro, em que vê no texto uma exemplificação da teoria psicanalítica. No primeiro, o texto literário equipara-se a outros sintomas de patologias. Os elementos contidos no texto deixam de ser referência em relação a sua própria valorização e coerência interna, para serem usados na elucidação ou ilustração da personalidade do escritor. O texto passa a explicar o autor, e a relação de coerência não se estabelece dentro do texto, mas fora. O segundo posicionamento tem muitas semelhanças com o primeiro, uma vez que novamente a referência está fora do texto. A diferença reside no fato de que, dessa vez, ela não está no escritor, mas na teoria psicanalítica. (RODRIGUES, 2003, p. 57-58)

Assim, através de nossa pesquisa bibliográfica em livros e artigos, temos por objetivo maior apontar alguns aspectos psicanalíticos da obra “Memórias do subsolo” de Fiódor Dostoiévski, investigando sua possível relação com o pensamento psicanalítico freudiano.

As informações biográficas além de trazer informações sobre o autor, também foram escolhidas por apresentar similaridades com características do personagem da obra (como a sua dificuldade em conviver em sociedade, seu apreço pelo pensamento racional e artístico em detrimento do pensamento do senso comum e suas dificuldades financeiras), de modo que indiretamente esse trabalho também investiga a subjetividade do autor, impressa em sua obra.

Alguns Elementos Importantes da Vida e Obra de Fiódor Mikhailovich Dostoiévski

Fiódor Dostoevsky
        Segundo informações da editora Nova Aguilar (2004), Dostoiévski nasceu num hospital de pobres, onde clinicava seu pai. Ele estudou na escola de Tchermak, onde se instruiu especialmente nas disciplinas literárias. Neste colégio, junto aos condiscípulos, revela-se um novo e doloroso aspecto da personalidade de Dostoiévski: a sua incapacidade de integração social. Não consegue amigos, vive num isolamento triste e ressentido entre os rapazes da sua idade.

Fiódor Dostoiévski sofrerá durante toda a sua vida desta incapacidade. Nas “Memórias do Subsolo” (de agora em diante, “Memórias”) encontramos sinais evidentes dessa sua maneira de ser, como veremos no decorrer deste trabalho.

Em setembro de 1837, Fiódor apresenta-se à inspeção na Escola de Engenheiros Militares de São Petersburgo e é aprovado. Começam os estudos que, conforme o pai desejava, o fariam entrar na carreira militar. Mas, ainda uma vez, não se adapta ao ambiente coletivo: os camaradas estão imbuídos de preconceitos e de ideais práticos e realistas sobre a vida, sobre o seu futuro, as carreiras mais lucrativas, as subidas de posto. Embora estudante aplicado e cumpridor dos seus deveres, não se junta a esses grupos, pelos quais sente desprezo. Entrega-se antes aos seus anseios e devaneios indefinidos e lê muito. Apenas se aproxima para falar-lhes de literatura, para tentar convencê-los dos seus ideais do “belo e do sublime” (alusão à obra do filósofo Immanuel Kant “Observação sobre os sentimentos do belo e do sublime”, de 1764) a que por mais de uma vez alude nas “Memórias”, guiando-os no conhecimento das melhores obras literárias.

Foi ainda durante este tempo de vida estudantil que começaram as constrangedoras cartas de pedidos, em que se queixa ao pai da penúria monetária e lhe suplica com palavras lastimosas o envio de algum dinheiro.

Seu irmão fica noivo e prepara-se para casar. Dostoiévski não foi ainda tocado por nenhum amor. Isso só virá bastante tarde. A decisão do irmão perturba-o, fá-lo sentir-se ainda mais só e infeliz.

Os estudos na Escola de Engenharia terminam em 1843 e Dostoiévski entra no serviço ativo. É nomeado alferes e designado para a repartição de desenho da Seção de Engenharia. Aluga casa. Isento da tutela paterna, começa para Dostoiévski uma vida mais livre. Frequenta teatros, concertos, casas de jogo, e percorre todas as ruas, ruelas e antros de Petersburgo, para conhecer a vida da cidade e dos seus habitantes. Segue os transeuntes, descobre-lhes os segredos e as misérias, entra nas tabernas, nos bairros operários, nos tugúrios da gente humilde. E, entretanto, em setembro de 1844, pede demissão. Fartara-se daquela vida de repartição, oficial e burocrática, cuja recordação de pesadelo terá influência persistente nas suas obras.

O segredo da existência não consiste somente em viver, mas em saber para que se vive. Fiódor Dostoiévski, 1821-1881Após seu primeiro romance, “Pobre gente” (1846), ficar pronto, encontra por acaso o seu amigo Grigórievitch, escritor, com obras publicadas e algum nome nos meios literários. Chama-o a sua casa e lê-lhe o manuscrito do seu romance. Grigórievitch fica entusiasmado. Arranca-o das mãos de Dostoiévski e corre a mostrá-lo a Niekrássov, diretor e proprietário de “O Contemporâneo”. Depois da leitura, em que ambos choram comovidos, vão procurar Dostoiévski em sua casa, às quatro da manhã, para o abraçarem. No dia seguinte, Niekrássov leva o manuscrito de “Pobre gente” a Bielínski, o crítico todo-poderoso. O critico lê todo o manuscrito de um fôlego e, ao terminar, tão grande é o seu entusiasmo que, voltando Niekrássov a visitá-lo nessa mesma tarde, diz-lhe: “Traga-me esse homem!”. No dia seguinte Dostoiévski é apresentado a Bielínski. Felicitações, abraços, louvores, conselhos. Quando Dostoiévski se separa do crítico, pergunta a si próprio: “É possível que eu seja tão grande?”.

Bielínski vai falar a todos do jovem escritor que acaba de descobrir. Dostoiévski está encantado com o seu triunfo. Ainda “Pobre gente” não foi publicado em letra de fôrma e já ele é conhecido, falado e discutido nos círculos literários, convidado para os salões de personalidades elevadas. Inebria-se, envaidece-se com a sua glória.

Mas Dostoiévski não é homem para salões. É desconfiado, orgulhoso, tímido e melindroso. E, por outro lado, a inveja e a incompreensão não o poupam. Ouve alusões maldosas, espalham anedotas ridículas e indignas acerca de Dostoiévski, que se desespera, foge e isola por algum tempo, mas volta de novo ao encontro dos falsos amigos e das maledicências dos salões, cedendo ao seu impulso de convivência e desejo de notoriedade.

Dostoiévski mais tarde travará relações com a família Issáiev, composta do marido, Alieksandr Issáiev, da mulher, Maria Dimítrievna e de um filho do casal, Páviel Issáiev. O marido é um bêbado incorrigível e, dado seu comportamento irregular, não consegue êxitos em parte nenhuma. A mulher, de trinta anos aproximadamente, é uma criatura doente, tuberculosa, dotada de um temperamento exaltado, sentimental e fantasista; e, ao mesmo tempo, uma decepcionada. Todos os seus sonhos de moça se haviam despedaçado com a companhia e a frustração daquele marido alcoólatra, que a forçava a viver numa insignificante cidade como aquela e a fazer trabalhos grosseiros aos quais não estava habituada. Quando o marido lhe apresenta Dostoiévski, Maria Dimítrievna fica lisonjeada com o conhecimento dum homem com o qual poderá conversar sobre literatura e outros assuntos. É provável que, por seu lado, Dostoiévski tenha sentido uma grande piedade por essa mulher nova, bonita, delicada e infeliz.

Fosse como fosse, a piedade e a ternura que essa mulher infeliz lhe inspirava, tomou-a Dostoiévski por uma paixão. Quanto a ela, Maria Dimítrievna, parece que não chegou a ter um grande entusiasmo pelo escritor. Era uma desiludida que buscava o refúgio de uma nova ilusão. Além disso, a sua vaidade de mulher sentia-se também lisonjeada. Mas a sua mútua atração e piedade não podiam ter futuro. Maria era uma mulher casada.

Até que a morte de Alieksandr Issáiev vem precipitar os acontecimentos, apesar de que Maria continua indecisa e chega a confessar a Dostoiévski que está apaixonada por Viergunov, o professor do filho. Em outubro de 1856, Dostoiévski é promovido a oficial, o que significa um ordenado certo. É então que Maria se decide e casam finalmente em fevereiro de 1857.

Anos depois, ao retornar de uma de suas viagens, Dostoiévski vem encontrar a esposa moribunda. Antes, porém, perde também o irmão, que fora o seu grande amigo, e recolhe então para si o encargo de sustentar a cunhada viúva e os sobrinhos. Está outra vez em grandes dificuldades econômicas, tanto mais que luta ainda por prolongar a vida do jornal A Época, que o irmão dirigia.

Entretanto, é no meio destas angústias que Dostoiévski redige uma das suas grandes obras, As “Memórias”. Dostoiévski será, a partir desta obra, o escritor do subterrâneo . É uma obra de um pessimismo azedo, anti-racionalista, na qual deve ter influído o seu estado de ânimo depressivo, consequente a sucessivos ataques de epilepsia.

A 15 de abril de 1864 morre finalmente sua mulher, após uma prolongada agonia. A par de mais estas experiências amorosas falhadas continuam para Dostoiévski as aflições pecuniárias.

Sofrendo há muito de um enfisema pulmonar, na noite de 25 ou 26 de janeiro do ano de 1881, tem uma hemorragia pulmonar, que torna a repetir-se, até que a sua vida se extingue no dia 28, ao fim da tarde.

 Algumas questões psicanalíticas na obra “Memórias” a partir da Segunda Tópica e o Conceito de Inconsciente

gam zeh ya'avor “Memórias” ilustra várias ideias de Freud. Num trecho (DOSTOIÉVSKI, 1962, p.173-174), o personagem fala sobre recordações de todo homem que são reveladas apenas para amigos, outras que revela apenas para si mesmo com grande dificuldade e coisas que até o próprio homem tem medo de desvendar em si mesmo. Isso remete à ideia da mente humana ser dividida em consciente, pré-consciente e inconsciente. Há coisas que o homem revela só para amigos porque tem consciência delas, mas não se sente a vontade de expor para todos. Outras são conscientes, mas ele se reprime de contar para qualquer pessoa que seja. Outras são inconscientes e ele tem medo de descobrir o que sejam, pois se estão inconscientes é porque o recalque achou melhor que ficassem assim e qualquer tentativa de emergirem ao consciente provoca medo. O personagem também diz que quanto mais honesto é o homem, mais destas coisas ele possui, o que remete à ideia de que quanto mais “correta” a pessoa seja aos olhos da sociedade, mais forte é seu Supereu que recalca mais dessas coisas do que numa pessoa menos “correta”.

Roudinesco (1998, p. 375) afirma que em psicanálise, o inconsciente é um lugar desconhecido pela consciência. Na primeira tópica elaborada por Sigmund Freud, trata-se de uma instância ou um sistema constituído por conteúdos recalcados que escapam às outras instâncias, o pré-consciente e o consciente. Uma instância a que a consciência já não tem acesso, mas que se revela a ela através de sonhos, dos lapsos, dos jogos de palavras, dos atos falhos, etc. Na segunda tópica, deixa de ser uma instância, passando a servir para qualificar o isso e, em grande parte, o eu e o Supereu.

Sigmund FreudTambém segundo Roudinesco (1998, p.647), para Sigmund Freud, o recalque designa o processo que visa a manter no inconsciente todas as ideias e representações ligadas às pulsões e cuja realização, produtora de prazer, afetaria o equilíbrio do funcionamento psicológico do indivíduo, transformando-se em fonte de desprazer. Já o Supereu seria uma das três instâncias da segunda tópica, juntamente com o Eu e o Isso. O Supereu mergulha suas raízes no isso e, de uma maneira implacável, exerce as funções de juiz e censor em relação ao Eu.

Freud se utiliza de diversas obras literárias como ilustrações de suas teorias. Dentre elas “Os irmãos Karamazov” de Dostoiévski. Freud também fez uma análise do escritor no ensaio “Dostoiévski e o parricídio” (1928), no qual o declara como neurótico, sádico e masoquista (respectivamente alguém que se satisfaz com o sofrimento alheio e que encontra prazer em sofrer, características presentes também no “homem do subsolo”) além de interpretar a sua epilepsia como tendo uma possível origem psicossomática, estando relacionada com um trauma de infância: o assassinato do pai pelos próprios servos e a culpa inconsciente pelo desejo que Fiódor possa ter sentido anteriormente de que o pai morresse tanto pela questão do complexo de Édipo quanto pela sua forma rude de ser e tratar a família. (ROUDINESCO, 1998; SANTANA, 2007)

O complexo de Édipo é a representação inconsciente pela qual se exprime o desejo sexual ou amoroso da criança pelo genitor do sexo oposto e sua hostilidade para com o genitor do mesmo sexo. O complexo de Édipo aparece entre os 3 e os 5 anos. Seu declínio marca a entrada num período chamado de latência, e sua resolução após a puberdade concretiza-se num novo tipo de escolha de objeto (ROUDINESCO, 1998, p. 166).

Em 1897, Freud abandona a “teoria da sedução”, onde a neurose teria por origem um abuso sexual real. Percebeu que nem todos os pais eram estupradores, mas, ao mesmo tempo, se deu conta de que as histéricas não estavam mentindo ao se dizerem vítimas de uma iniciativa de sedução. Assim, percebeu duas coisas: que, com bastante frequência as mulheres inventavam, sem intenção de mentir, os atentados, e segundo que, mesmo quando o fato havia realmente acontecido, ele não explicava a eclosão da neurose. Freud então substituiu a teoria da sedução pela da fantasia. Portanto, abandona-se a noção de um trauma ao nível da realidade e adota-se a noção de um conflito psíquico entre o Inconsciente e o consciente. ROUDINESCO (2000,p. 71-77) afirma que Freud era contra ideias deterministas e por isso não podia aceitar que um trauma poderia determinar a vida de uma pessoa para sempre.

O homem do subsolo, em determinado momento, assume que muitas vezes as humilhações dos quais se dizia vítima eram exageradas e coisas de sua cabeça (DOSTOIÉVSKI, 2000, p.56). E é justamente a essa dimensão que vai ser dada maior primazia numa análise, onde importa o que sujeito diz, o que povoa o seu imaginário, a sua própria visão dos fatos – e não os fatos propriamente ditos; enfim, é também daí mesmo que podemos dizer que a análise não se presta a uma investigação sobre a verdade, mas a uma investigação do desejo.

"Freud's Last Session," Pittsfield, Credit: Kevin SpragueO homem do subsolo possui características de um neurótico obsessivo tais como sintomas obsedantes e uma ruminação mental permanente, na qual intervêm dúvidas e escrúpulos que inibem o pensamento e a ação (ROUDINESCO, 1998, p.538).

De acordo com Santana (2007), elementos contraditórios fervilham dentro do homem do subsolo, fornecendo-nos a imagem do sujeito para a psicanálise – já que, para esta, o ser humano é razão e desrazão, consciência e inconsciência, permeado por amor e ódio. Tal ideia, de que haveria no homem uma tendência oposta àquela que procura obter somente o prazer nas relações, sejam elas quais forem, aparecerá com a publicação de “Mais-além do princípio de prazer” (1920), no qual Freud instaura um novo dualismo pulsional, opondo as pulsões de vida às pulsões de morte. Tal dualismo decorreu da “compulsão à repetição”. Freud percebeu que o sujeito queixoso continuava a repetir as ações que lhe eram fonte de desprazer; em suma, percebeu que a fonte de desprazer era também fonte de prazer. É o que se nota comumente quando as pessoas vivem a repetir ações das quais sempre se queixam. Com isso, quis mostrar que o ser humano é capaz de subverter qualquer padrão pré-estabelecido, qualquer classificação que o predetermine, até mesmo os padrões biológicos.

O homem do subsolo se apercebeu do sentimento de prazer que tinha nos momentos em que menos tinha razão para isso, sentia prazer na degradação de si próprio, sentia prazer nos momentos em que deveria sentir ojeriza. Podemos notar esse sentimento paradoxal, por exemplo, na segunda parte do texto, intitulada “A propósito da neve molhada”, na qual o homem do subsolo trava relação com uma prostituta chamada Lisa. Ao passar na frente do espelho, o homem do subsolo pensa: “Meu rosto transtornado pareceu-me extremamente repulsivo, pálido, rancoroso, detestável, com o cabelo em desalinho. Não importa, estou contente com ele, estou contente por parecer a ela repulsivo; gosto disso.” (DOSTOIÉVSKI, 2000, p.102).

Penso ser relevante aqui lembrar que, segundo o homem do subsolo, ele apenas consegue perceber isso por causa de sua grande inteligência, de sua consciência hipertrofiada (DOSTOIÉVSKI, 1962). Aqui está um dado importante: como é possível apontar em “Memórias” certa prefiguração do Inconsciente freudiano, se, no entanto, o anti-herói do texto vangloria-se de sua hiper-consciência? Ainda que não possamos falar do Inconsciente propriamente dito, assim como falou Freud, em “Memórias” há um vislumbre muito forte de tal noção, de algo que impulsiona o ser humano em suas ações e que opera de outra maneira, de forma não inteiramente racional; e é assim que o homem do subterrâneo nos atesta que há um fundo de indeterminação no ser humano que nunca poderá ser abarcado totalmente – o que representaria a morte do aspecto singular do homem. Aliás, foi isso que ele quis dar a entender ao dizer que “dois mais dois não são mais a vida, meus senhores, mas o começo da morte”; e ainda: “Estou de acordo que dois mais dois é uma coisa admirável, mas se é para se elogiar tudo, então dois mais dois são cinco também constitui às vezes uma coisinha muito simpática.” (DOSTOIÉVSKI, 1962, p.164).

A propósito, é nesse mesmo ponto em que podemos dar conta de mais uma importante semelhança entre a literatura de Dostoiévski e o pensamento psicanalítico: ambas subvertem o ideal de ciência para dar primazia ao sujeito, ao sujeito desejante. Está aí um fator essencial para compreendermos o que se passa nas críticas que o homem do subsolo faz às concepções idealistas e aos saberes totalizantes em geral. A ciência, por exemplo, na busca de um saber absoluto e completo, que tudo prevê e tudo sabe, em seus edifícios classificatórios procura manipular todas as “variáveis”, pois só assim seria possível obter a reprodução desejável de um experimento. O conhecimento científico está fundado no caráter necessário das coisas e, portanto, um dos seus pressupostos, para que um conhecimento possa ser validado como verdadeiro, é a reprodução fidedigna do experimento; ou seja, parte-se do pressuposto de que o conhecimento verdadeiro das coisas deve ser necessário, e não casual, pois que “a verdade” nunca poderia ser acidental, aleatória. E isso só seria possível de uma maneira: eliminando o aspecto contingencial do sujeito, ou seja, tornando-o como uma mera “tecla de piano” (termo utilizado em “Memórias” por diversas vezes). Assim, ao preservar no Homem o seu caráter desejante, tanto a psicanálise quanto o homem do subsolo acolhem a aleatoriedade e o acaso enquanto dimensões essenciais para compreendermos o ser humano.

A obra ilustra as ideias de Isso, Eu e Supereu ao mostrar um personagem que tem o tempo todo desejos instintuais bem destoantes do que de fato consegue realizar. Nem sempre o Eu consegue equilibrar as instâncias psíquicas, mas é fato que o Supereu impede que certos desejos se realizem. A repressão do Supereu leva a comportamentos explosivos em alguns momentos, o que acaba expondo o inconsciente e perversões como sadismo (sente algum prazer em maltratar a prostituta e manipulá-la) e masoquismo (a hipótese de sentir prazer sendo arremessado de uma janela). É o Supereu que leva o homem do subsolo a procurar aprovação social, mesmo detestando as pessoas ao seu redor.

Freud afirma que algo se torna pré-consciente quando consegue se ligar com as representações verbais correspondentes (FREUD, 2011). Notam-se as ideias inconscientes no homem do subsolo como ideias que o levam a comportamentos inesperados e que não combinam sequer com os pensamentos que vínhamos lendo. Para quem apenas observava o homem do subsolo, todo seu comportamento poderia parecer sem sentido, mas para o leitor que pode ler seus pensamentos é possível enxergar alguma lógica. Há, porém coisas que o narrador não diz e que de repente causam reações inesperadas no personagem o que ilustra as ideias inconscientes que não tem ligação com as representações verbais e por isso não são expressas pelo narrador, pelo menos não num primeiro momento. As novas ideias que são expressas depois de determinados momentos seriam ideias inconscientes que passaram a ser pré-conscientes.

Freud afirma que o Eu sofre com as ameaças do mundo exterior, da libido do Isso e o rigor do Supereu, pois o Eu quer intermediar entre o mundo e o Isso, fazendo o Isso obedecer ao mundo e ao mesmo tempo o mundo levar em conta o desejo do Isso. Tenta permanecer bem com o Isso e disfarça seus conflitos com a realidade e com o Supereu através de racionalizações pré-conscientes. (FREUD, 2011) Isso é ilustrado por Dostoiévki em “Memórias” quando o homem do subsolo afirma que odiava a todos os funcionários com que trabalhava na repartição e os desprezava, mas ao mesmo tempo os temia e os colocava acima de si mesmo por acreditar que um homem “decente” não pode viver sem se desprezar em alguns momentos até ao ódio. Odiando ou desprezando ele abaixava os olhos diante de todos, adaptando-se à realidade (DOSTOIÉVSKI, 2000, p. 57).

        Freud afirma que algumas pessoas no trabalho analítico ao perceberem possibilidade de melhora ficam insatisfeitas e pioram. Entendeu que estas pessoas não toleram elogios e reconhecimento e reagem mal à proximidade de cura. Elas necessitam da doença devido a uma culpa que se satisfaz na doença, ainda que o paciente não se diga culpado de nada. (FREUD, 2011, p.48). Semelhantes sintomas aparecem no homem do subsolo logo no inicio de “Memórias” quando afirma ser um homem doente que não procura tratamento e deseja que a doença piore. Mais tarde irá dizer que todos se vangloriam de suas doenças (DOSTOIÉVSKI, 2000, p.15 e 19).

 

Conclusão

        “Memórias”, assim como qualquer outra criação, apresenta traços da subjetividade humana que podem ser analisadas pela teoria psicanalítica, mas a escrita de

Dostoiévski facilita ainda mais esta tarefa pela forma explicita pela qual expõe a subjetividade de seus personagens e indiretamente a sua própria.

As informações bibliográficas evidenciam diversas similaridades entre o autor e o personagem da sua obra e a obra apresenta diversos indícios de sintomas que se encaixam na teoria psicanalítica como neurose, benefício da doença, entre outros. O drama pessoal dostoievskiano parece se reproduzir com grande força em seus próprios manuscritos, sobretudo na obra “Memórias”, desde as questões mais psíquicas íntimas, assim também como as de teor mais filosófico.

Dentro dos limites de nosso trabalho, o que pretendemos mostrar aqui – mas de modo algum esgotar! – foi o fato de que a Psicanálise parece poder confirmar intuições literárias acerca da ação humana que grandes escritores tiveram; Dostoiévski parece ser um caso exemplar, mas, certamente, não é o único.

Referências Bibliográficas

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FREUD, S. (1928) Dostoiévski e o Parricídio. In: Obras Completas ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1990.v.XXI.

______. (1923) O Eu e o id . In: Obras Completas volume 16. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

RIBEIRO, O. Crítica Literária e Psicanálise. In: Textura, Canoas, n.9: 57-65, nov.2003 a jun. 2004.

ROUDINESCO, E. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

______. Por que a Psicanálise? Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge

Zahar, 2000.

SANTANA, Bruno Wagner D’Almeida de Souza. O subsolo de um e de outro – Freud em Dostoiévski ou Dostoiévski em Freud? Psicanálise e Barroco – Revista de Psicanálise, Juiz de Fora, v.5, n.1: 48-73, jun. 2007.

______. Dossiê Literatura e Psicanálise. Revista de Letras, São Paulo, n. 46 (2): 13-29, jul./dez. 2006.

SCHNAIDERMEN, Boris. Prefácio. In: DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Memórias do subsolo. 3. edição. São Paulo: Editora 34,  2000

VIDA e obra de Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski. In: DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Obras completas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar,  2004.

Os provérbios de Deus

“mas de mim Deus fez um provérbio para todos, um homem em cujo rosto os outros cospem. Jó 17:6

Agora, porém, sou a sua canção, e lhes sirvo de provérbio. Jó 30:9

Tu nos pões por provérbio entre os gentios, por movimento de cabeça entre os povos. Salmos 44:14

E serás por pasmo, por ditado, e por fábula, entre todos os povos a que o Senhor te levará. Deuteronômio 28:37

 

Provérbio no dicionário Michaelis

pro.vér.bio

sm (lat proverbiu) 1 Máxima breve e popular; adágio, anexim, ditado, rifão, sentença moral. 2 Pequena comédia que tem por entrecho o desenvolvimento de um provérbio.

Relendo o livro de Jó(provavelmente pela quinta vez), encontrei esse verso e o postei no meu perfil do Facebook, onde venho tentando mostrar, nos últimos dias,  através de trechos do livro de Jó que mesmo Deus sendo amor, Ele ainda é capaz de fazer com seus amados que alguns acham que ele jamais faria.Mais tarde pensei naquilo que Jó afirma: que Deus teria feito dele “um provérbio para todos”. Provavelmente essa é uma das justificativas para Deus causar ou permitir o sofrimento na Terra, mesmo com os “inocentes”. Deus usa o sofrimento de alguns como um provérbio, um ensinamento para todos.

É claro que poderia ser apenas algo dito por Jó num momento de dor, sem conexão com a realidade(para quem não acha que cada afirmação na Bíblia é inspirada) mas a verdade é que o sofrimento de alguns como tendo utilidade para outros é um tema que a Bíblia aborda constantemente, conforme exemplificado nos versos do começo desse post e em outros diversos.

Eu jogarei imundície sobre você, e a tratarei com desprezo; farei de você um exemplo. Naum 3:6

Porque me parece que Deus nos colocou a nós, os apóstolos, em último lugar, como condenados à morte. Temo-nos tornado um espetáculo para o mundo, tanto diante de anjos como de homens. 1 Coríntios 4:9

O sofrimento pode servir tanto para o crescimento da pessoa que sofre quanto para o crescimento de outras (não apenas como vingança, como muitos imaginam). Por isso é que mesmo uma pessoa ou ser que aparentemente não tem no que crescer (como crianças e animais) o sofrimento pode ser aplicado ou permitido por Deus.Todos nós provavelmente já fomos tocados e ensinados por exemplos de pessoas que passaram por grandes sofrimentos.

Pode parecer injustiça que alguém “inocente” tenha de sofrer para ensinar algo aos outros, ainda mais para pessoas que não são tão inocentes assim mas é algo que Deus faz e que acha aceitável, além de ser algo parecido com o que Cristo fez (Cristo não foi só um exemplo, mas também foi e aceitou sofrer tanto na morte quanto em vida por nós, pois não é moleza para Deus ter de viver como homem).

É claro que nem todos entendem a mensagem corretamente.Há quem entenda que se alguém sofre, sofre porque merece e esse foi o entendimento dos amigos de Jó.Provavelmente muitos dos que o viam como provérbio, diziam que era o exemplo do que acontece a um homem sem Deus, embora isso não fosse verdade.Paulo e outros apóstolos também foram mal interpretados por muitos no seu sofrimento:

Nós somos loucos por causa de Cristo, mas vocês são sensatos em Cristo! Nós somos fracos, mas vocês são fortes! Vocês são respeitados, mas nós somos desprezados!

Até agora estamos passando fome, sede e necessidade de roupas, estamos sendo tratados brutalmente, não temos residência certa e trabalhamos arduamente com nossas próprias mãos. Quando somos amaldiçoados, abençoamos; quando perseguidos, suportamos; quando caluniados, respondemos amavelmente. Até agora nos tornamos a escória da terra, o lixo do mundo.

1 Coríntios 4:10-13

Quantos ainda querem ser usados sabendo disso?Que Deus nos ajude a dormir com esse barulho.

O Nome da Rosa – Análise e Interpretação do filme

Red rose

Esse filme de ficção, baseado no livro do mesmo nome de Humberto Eco, nos leva a refletir em diversos assuntos como fanatismo vs racionalidade, hipocrisia religiosa, os costumes da Idade Média e o surgimento do pensamento moderno, no período da transição da Idade Média para a Modernidade.

A história se passa num mosteiro do no norte da Itália, no século XIV e o personagem principal é um monge chamado William de Baskerville que traz consigo um noviço chamado Adso. William vai até o mosteiro a fim de participar de um concílio, mas acaba se envolvendo na investigação de um caso de uma série de assassinatos misteriosos que ocorrem no mosteiro durante sua estada lá.

No filme todo vemos o contraste entre as hipóteses mais racionais de William e as hipóteses dos religiosos que insistem em imaginar que os assassinatos estejam ocorrendo através de intervenção diabólica ou por punição divina (chega-se ao ponto de crer que possam estar se cumprindo profecias apocalípticas naquele momento).

Nota-se a hipocrisia religiosa pelo desamparo em que os monges deixam os pobres que moram nos arredores do mosteiro, pela troca de alimentos por sexo que ao menos um pratica com uma moça pobre, pela prática homossexual que existe e é conhecida de todos e pelo modo fácil com que se mata a fim de esconder livros para preservar o poder da igreja, evitar que costumes sejam contrariados e outros motivos.

Numa cena em que alguns personagens inocentes estavam prestes a morrer queimados como punição por supostas heresias Adso declara que o anticristo havia vencido mais uma vez, demonstrando uma crença de que aquilo que acontecia ali era uma antítese do verdadeiro cristianismo, e de que havia nele uma esperança de um cristianismo melhor.

O filme mostra alguns costumes da Igreja Católica da Idade Média como concílios para discutir assuntos teológicos, proibição de risadas e barulhos aos monges, autoflagelações, venda de indulgências e torturas e assassinatos dos supostos hereges.

William tem um método de investigação parecido com o de Sherlock Holmes, personagem de Sir Arthur Conan Doyle: interroga, questiona, duvida e observa pequenos detalhes que a maioria normalmente não presta atenção, percebendo coisas que a maioria não vê e vai juntando peças e formulando sua hipótese sobre qual seja a solução do mistério. Segundo a Wikipédia, seu sobrenome seria uma homenagem a “O Cão dos Baskerville” um dos casos mais famosos de Holmes. Já o nome Adso seria uma referência a Watson, o ajudante de Holmes.

O modo como as mulheres são vistas no filme aparentemente tem a ver mais com tabu sexual do que uma tentativa sincera de obedecer o que está na Bíblia. Até mesmo William parece contaminado com esse tabu ao fazer somente referências bíblicas negativas em relação à mulheres e expressar sua interpretação de que elas possam ter algo de bom como uma opinião pessoal. Ele não se lembrar de referências bíblicas que digam isso deve ter a ver com o fato de que tabus ou outros tipos de pré-interpretações da vida impedem que a pessoa veja objetivamente o que um texto ou outro tipo de conteúdo diz. A mesma dificuldade é observada no momento que William confronta o reverendo Jorge acerca do humor usado pelos santos. Embora Jorge creia nos relatos usados por William, ele não aceita que eles digam algo contrário ao que ele já crê.

William não descrê totalmente na Igreja, ele apenas vê que ela exagera nas suas interpretações e propõe explicações mais simples, mais naturais. Ele tenta equilibrar a fé com a razão, embora diversas vezes pareça ter uma “adoração ao saber”. Isso pode ser notado quando, apesar de toda a sua racionalidade ele demonstra um desprezo pelo amor de uma mulher. Alguém como ele dificilmente teria escolhido o celibato só por causa do costume católico, ele aparenta fazer esse sacrifício (ainda que inconscientemente) por amor a outra divindade psicológica, o saber.

Referências

O NOME DA ROSA. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2013. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=O_Nome_da_Rosa&oldid=36040382>. Acesso em: 23 jun. 2013.

Texto escrito originalmente para o professor Franco Cossu Jr . Com colaboração de Ana Carolina Maia.